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Por uma nova Sustentabilidade | IPAI Auditoria Interna Abr/Jun 2012

As últimas semanas foram naturalmente dominadas pelo próximo evento RIO+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável

Uma das inúmeras iniciativas associadas foi a “messages of the world” que publicou mensagens recebidas de pessoas de todo o mundo.

Uma breve leitura das muitas mensagens publicadas permitiu perceber quanta esperança foi depositada nos esforços globais para criar um planeta mais sustentável, mas também que a grande maioria das mensagens era focada nas questões ambientais.

Desde o início do movimento do Desenvolvimento Sustentável que, do meu ponto de vista, se colocam algumas contradições que nunca foram bem tratadas e que precisam de ser encaradas com determinação idêntica à que usamos para combater as ameaças ambientais. Irei referir aqui apenas uma – a questão do modelo de desenvolvimento e da criação de emprego.

Durante anos observei em muitas pessoas que quando falavam de “desenvolvimento sustentável” assumiam que o vigente modelo de desenvolvimento era excelente mas precisava tornar-se mais “ecológico”, mais amigo do ambiente, melhor utilizador dos recursos, mais reutilizador e reciclador.

A questão não estava no “modelo de desenvolvimento” mas sim em esse modelo não ser suficientemente “sustentável”.

Nunca acreditei que um modelo de desenvolvimento que exige o crescimento constante, o aumento do consumo, a subida média das bolsas, pudesse tornar-se sustentável.

O sistema baseia-se na criação de bolhas, que têm de ser recicladas de tempos a tempos.

Este modelo pôde no passado conviver com os 3 Rs e pode hoje e no futuro ganhar muito dinheiro com os negócios do ambiente, mas nunca conseguirá ser um modelo de sustentabilidade porque exige muita energia para criar algo que se destina a ser destruído rapidamente de modo a que novos produtos possam entrar no mercado e ser comprados.

De automóveis a roupas, utensílios eletrónicos ou mobiliário, tudo terá de existir num curto ciclo de vida para que as fábricas não parem, o comércio continue e o dinheiro circule.

Os materiais serão reciclados e teremos casas feitas com restos de automóveis, roupas produzidas a partir de fibras recicladas, agricultura alimentada com os desperdícios urbanos, energia recebida diretamente do sol, ou através do vento.

O material produzido igualará um dia o material reciclado. Mas a energia desta equação subirá sempre, gasta a produzir e depois gasta a reciclar. Na equação da energia infelizmente a Física não permite reciclagem. Nada a recear se ela puder dissipar-se para o espaço sideral. Mas tal não é, segundo algumas autoridades científicas, tão garantido como parece, porque se geraram barreiras na atmosfera que o impedem em parte, pequena por ora mas crescente.

Por outro lado este modelo foi eficaz num mundo em que as disparidades, Norte-sul e entre Desenvolvidos e em Desenvolvimento, permitiam a recirculação de capitais e mercadorias, que absorviam em boa parte o efeito das bolhas. Hoje isso não é mais possível na mesma extensão. Ainda por outro lado este modelo não previa a chegada ao mercado produtor de centenas de milhões de pessoas que em consequência desejam usufruir dos mesmos níveis de consumo que os seus antigos colonizadores. Pior do que tudo isso este modelo não foi criado para um mundo de telecomunicações instantâneas e de opinião pública global.

Penso que todos têm consciência que nada vai voltar a ser como dantes, como nos gloriosos anos 80 e 90 do século passado. Uns acreditam que o sistema está apenas a viver uma “gripe” saudável, que os suores frios fazem parte do processo de cura e que os milhões de falidos e desempregados são apenas “danos colaterais”, outros, no extremo oposto, vêm já a alvorada de um maravilhoso mundo verde, feito de cânticos de louvor à nova deusa Terra, celebrada em festas à maneira da São Francisco dos anos 60, com o “imagine” de Lennon em fundo.

Receio que não será bem assim. Parece-me bem evidente que precisamos de um novo modelo de desenvolvimento que seja sustentável, concebido para responder às necessidades das pessoas, sem sobre utilização de recursos ambientais e sem a necessidade de crescimento de produção, ou seja, que tal como o anterior foi excelente a produzir, esse novo modelo terá de ser igualmente eficaz a distribuir, enquanto mantém a anterior eficácia a produzir.

Se o anterior modelo é de alto consumo de energia e de carbono, o próximo terá de ser de consumos reduzidos e baseado mais em produtos da terra e mercadorias virtuais do que em artefactos físicos. Chegou, para o ambiente e para as TIs a hora da “Nuvem”.

Estou a ver os leitores a sorrir perante a utopia e perante a lonjura da possibilidade deste novo modelo. Mas não é bem assim. Atente-se à atenção que a questão do estilo de vida atraiu em muitas e insuspeitas entidades.

Simbolicamente a família Obama instalou uma horta na Casa Branca. Paris expôs nos Campos Elísios milhares de pequenas iniciativas rurais. Ministros optam por vespas, a gravata perde adeptos, o biológico e o natural crescem.

Mas tudo isso são apenas sinais. O verdadeiro motor para um novo modelo de desenvolvimento é a necessidade. Produzimos muito, seria de esperar que trabalhássemos menos, por ser menos necessário trabalhar para viver.

O absurdo é que quanto mais produzimos mais temos de trabalhar, porque o atual sistema não sabe organizar-se de outra forma.

Este absurdo terá mais tarde ou mais cedo um desfecho lógico. Virá um novo estilo de vida.

Com os olhos postos no futuro temos de continuar a cuidar do presente. Temos de continuar a trabalhar pela agenda básica (assim estamos entre nós) ou seja pela recolha seletiva, pela reciclagem, contra a destruição dos recursos florestais, pela eficaz gestão da água, pelas energias renováveis, pela eficácia térmica das construções, pela redução e tratamento dos efluentes, etc., etc. Mas sabemos que esta é uma estratégia de mitigação de impactes e que seremos inevitavelmente derrotados pela pressão por mais empregos ou por mais instalações industriais. Até porque o Ambiente e as Gerações Futuras não têm assento na Concertação Social.

Há uma enorme esperança nas mensagens que chegam ao site da Conferência Rio+20. Só não será defraudada se a nova Sustentabilidade responder também às questões sociais. Como vamos dar às pessoas, a todas as pessoas, condições de vida dignas? Como vamos garantir paz, sustento, saúde, realização pessoal, liberdade e continuidade a todas as comunidades humanas no Planeta?

Quem o irá conseguir se os governos nacionais perdem poder, os regionais são confusos e de vistas curtas e os mundiais ainda não existem?

Se, como dizia Mário Soares, o século XX foi o século do Povo, este talvez venha a ser o Século da Pessoa Humana, sem distinção alguma.

São as Pessoas que podem formar as redes de cooperação entre Partes Interessadas de que fala a ISO 26000, se adotarem os perenes valores éticos que ao longo da História se revelaram geradores de comunidades humanas sustentáveis.

A nova Sustentabilidade é um pacto ético em que as atuais pessoas, enquanto guardiãs e responsáveis do Planeta que lhes foi legado, o administram para obter o seu sustento e o enriquecem em recursos naturais para o transmitir às novas gerações melhorado!

 

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