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ISO 26000: uma estratégia global | ipai auditoria interna jul/set 2012

No dia em que escrevo este pequeno texto ouvi Bill Clinton defender os seus pontos de vista sobre a forma de ultrapassar a crise mundial.

O centro da sua argumentação é coincidente com o apelo que identifico na ISO 26000 e nos instrumentos semelhantes que têm surgido.

Essa ideia é a de que só há soluções boas se resultarem da “cooperação, consenso, convergência”.

Os problemas que temos são globais e não se resolvem com remédios locais.

A globalização dos mercados não tem retorno pacífico, e embora outros cenários sejam surdamente referidos aqui e ali, todos sabem que não haveria vencedores e toda a Humanidade sofreria um recuo.

Um mundo multipolar onde a Europa regressará a um papel menor do que o que teve nos últimos séculos e onde temos de aprender a produzir e consumir de acordo com esse novo lugar no mundo.

Só podemos imaginar o crescimento de uma consciência humana universal que obrigue os interesses particulares a procurar o bem comum.

É disso que fala a Comissão Europeia quando se refere ao “ecossistema” organizacional e é disso que fala a Responsabilidade Social quando se baseia no diálogo com as partes interessadas, no direito destas a ser ouvidas e ver as suas expectativas atendidas, na governação participada e aberta, na mudança dos objetivos organizacionais e na redefinição do que é “lucro” e para quem se realiza.

Uma profunda mudança nos estilos de gestão será essencial para que a “cooperação” venha a ocupar o lugar da atual “estratégia de combate”. Mas a necessidade é rainha e o lugar vazio procura a solução que o irá preencher.

A inovação será também fornecedora de novos conceitos e mentalidades.

O problema está sempre na forma como vemos as coisas, que não nos permite identificar outras alternativas mesmo quando são simples e óbvias.Ilustrando esta ideia não resisto a referir o paradoxo do “estribo”.

O pensamento grego e a civilização romana não conseguiram descobrir o “estribo” para os cavalos que usavam na guerra. Alexandre conquistou metade do mundo a cavalo mas não lhe ocorreu colocar-lhe estribos. Roma criou uma magnífica máquina militar mas ninguém conseguiu formar esta ideia simples: se os pés dos cavaleiros se apoiassem em estribos seriam muito mais capazes de combater com armas de precisão e de superior peso.

Na realidade no século VII a introdução do estribo mudou a história da Europa e contribuiu para o nascimento do Feudalismo.

É bem possível que algo muito simples e evidente esteja por aí esperando que alguém lance “um novo olhar”.

Se fosse possível que as partes identificassem objetivos comuns, se comunicassem sem preconceitos, se expusessem os seus pontos de vista com respeito mútuo, se aceitassem as suas diferentes necessidades, se se considerassem como partes indispensáveis do todo, se buscassem o bem geral, se dominassem o egoísmo e a ganância, se falassem mais de possibilidades e menos de exigências, se dessem tudo o que podem dar para receber tudo o que é possível receber, se valorizassem mais a solução geral do que a vitória particular, esse “novo olhar” veria que temos riqueza bastante para todos, que é possível construir uma Terra bela e rica onde todos podem viver dignamente.

Claro que isto é uma utopia, mas os grandes objetivos são sempre utópicos.

Temos de saber para onde gostaríamos de ir no futuro para saber que caminho fazer amanhã.

Nada tem de utópico começar já a reorganizar os processos de tomar decisões e torná-los mais simples, mais transparentes, mais participados e mais orientados para o bem da organização e do seu ecossistema.

Nada tem de utópico começar já a “ver” as pessoas como voluntários de causas em que acreditam e fazer do projeto organizacional uma causa que mobilize o seu entusiasmo e não apenas o seu sacrifício quotidiano.

Como não é utópico olhar para os nossos clientes e procurar cooperar indo para além do que estritamente nos pagam e fazer por eles aquele extra que os ajudará a obter sucesso.

Não é mesmo nada utópico participar da vida da nossa associação de sector e procurar o desenvolvimento de todos pela cooperação em pesquisa, investigação e desenvolvimento.

Como poderá ser utópico sair do nosso castelo empresarial e ver a sociedade que nos cerca, procurando apoiar as instituições sociais e as pessoas carenciadas para que a comunidade seja mais feliz e o ambiente em que trabalhamos mais próspero e acolhedor?

Como recentemente disse Durão Barroso no discurso sobre o Estado da União, o que é inaceitável é o desemprego, as falências em massa, os idosos abandonados, os jovens sem futuro, as crianças que não nascem porque os pais não veem uma vida para elas.

As empresas portuguesas esperam um sinal do poder político sobre esta matéria.

A Estratégia Europeia de Responsabilidade Social ainda não teve eco entre nós.

Nos países da “primeira velocidade” a RS vai avançada e produzindo efeitos.

Aqui nesta periferia vista como lenta, corrupta e pouco qualificada, a RS é considerada por muitos sábios comentadores como “utopia”.

E no entanto fazia aqui mais falta que lá.

Não são os empresários nem os sindicalistas que se opõem à cooperação e ao diálogo. CIP, CCP, UGT confirmaram o seu empenhamento numa política nacional de Responsabilidade Social.

É dos corredores da burocracia que vem o maior pensamento negativo, apoiado pela falta de prioridade que o poder político lhe atribui.

Nestes dias em que as contas são cada vez mais difíceis de pagar e os clientes mais difíceis de convencer, seria bom que juntássemos aos clamores da desilusão um sinal de esperança pela cooperação, pelo muito que podemos fazer se mobilizarmos “voluntários” por uma enorme causa social: levar Portugal para um futuro melhor.

Essa é a nova necessidade da Estratégia de Gestão: não há solução sozinhos, vamos integrar todas as forças da empresa, trabalhadores, clientes, fornecedores e acionistas, e tentar “um novo olhar”.

Aqui deixo esse desafio aos empresários: lancemos uma campanha para “um novo olhar” sobre o que podia ser feito melhor e mais barato, sobre as pessoas que podiam dar maior contributo, sobre produtos que podiam satisfazer outras necessidades, sobre energias que se perdem e energias que não chegam a ser usadas, sobre relações cortadas que deveriam religar-se, sobre esperanças que se perderam e que têm de ser renovadas, sobre projetos que não podem falhar mas que o pessimismo corrói, sobre desleixos e incúrias que não podem mais ser tolerados, sobre erros próprios que minam o esforço e que não devemos mais suportar, sobre tudo o que poderíamos fazer melhor mas que espera um impulso para suceder.

Sobre tudo isso talvez “um novo olhar” descubra o “estribo” que nos dará equilíbrio e força para enfrentar os novos obstáculos.

 

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