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ISO 26000: Da Ética à Responsabilidade Social | Cadernos de Economia Abril de 2013

A Ética das organizações estuda os valores e princípios que a organização adopta para decidir entre o que é certo ou errado e bom ou mau, na sua conduta, na forma como as decisões são tomadas no seu seio e na apreciação que faz do comportamento dos seus trabalhadores e outras partes interessadas.

Os estudos empíricos têm demonstrado claramente que perante uma decisão as pessoas são mais conduzidas por aquilo que acreditam que a Organização espera delas do que pelo seu código de valores pessoal, justificando isso pelo interesse da organização ou pela sua própria preservação enquanto empregados.

Assim o estudo da ética de uma organização é importante para compreender as suas ações passadas e antecipar o seu provável comportamento futuro. Como tal é essencial na apreciação do risco associado a fazer negócios, trabalhar, investir, comprar ou vender a essa organização.

As organizações compreenderam este risco e formalizaram estudos sobre quais os valores que maximizam a sua sobrevivência bem sucedida a longo prazo, plasmando-os em Códigos de Ética que resumem o sistema de crenças da organização. Algumas, no entanto, resumem este trabalho a uma operação de relações publicas apresentando a sua boa face em “códigos” que não resultaram de qualquer trabalho interno suficientemente amplo e que não são mais que instrumentos normativos impostos.

Valores errados são muito possivelmente apenas valores desatualizados, que outrora corresponderam à cultura e objetivos dominantes na Organização e que ficaram na sua ossatura, sempre muito resistente a processos de mudança. Valores errados podem conduzir o trabalhador a ações que julga adequadas mas que prejudicam a organização. Isso é particularmente arriscado quando o trabalhador tem elevada autonomia ou exerce responsabilidades de gestão intermédia.

Os valores podem ser perenes mas a sua percepção, ou mesmo o significado do “wording” que lhes serve de descritor, estar inadequada ou desatualizada. Assim o trabalho de identificação das crenças dominantes não se pode considerar como feito de uma vez por todas e deve ser objeto de revisão periódica.

É geralmente aceite que o melhor teste à aplicação prática dos valores organizacionais e a melhor forma de rastrear as crenças dominantes é a discussão, livre mas monitorizada, sobre dilemas éticos, reais na organização ou construídos para evidenciar possíveis opções reais. Os limites deste método estão ligados à correção do dilema e à orientação pessoal do analista. Como sempre o “case study” tem de ser testado e avaliado o grau de liberdade efetiva que confere aos participantes e o analista terá de reconhecer os seus próprios pré-conceitos sobre a matéria.

A organização que guia adequadamente os seus trabalhadores quanto aos valores a observar não só gera um melhor ambiente interno como reduz os potenciais “triggers” de problemas externos, ao nível de consumidores, fornecedores, autoridades publicas, entre outros.

Além disso a organização que procura fundar as suas operações em valores éticos comuns a toda a organização, cria uma comunidade de cooperação que é fundamental aos processos de melhoria e inovação.

A organização ética é necessariamente uma organização socialmente responsável. Não é responsável a organização que não identifica no seu sistema de valores os seus próprios deveres e limites. Não é suficiente que a alta Administração seja orientada por elevados valores éticos e obedeça a altos requisitos de responsabilidade. Se essas orientações não estiverem incorporadas na forma quotidiana e generalizada de fazer decisões e elaborar orientações, a organização corre seriamente o risco de atos que poderão ser rejeitados pela sociedade originando o “acidente ético”, por vezes tão danoso no plano financeiro e reputacional como um acidente ambiental.

A responsabilidade social é assim uma consequência ética que leva a organização a aceitar ser responsabilizada pelos seus impactes na sociedade e no ambiente. Por isso a RS é uma estratégia de gestão que visa incorporar essa responsabilização nas operações e atividades. Dado que nenhuma organização pode assumir uma responsabilidade integral, tem de ligar a todo o processo as partes interessadas, os “stakeholders”, seriadas e envolvidas de acordo com o seu grau de relevância. O envolvimento das partes interessadas será tanto maior quanto mais percepcionarem o valor que auferem pela boa operação da organização em causa. De facto criar valor para as partes interessadas é agora a principal função da organização, já não apenas criar valor para o acionista, o “shareholder”. Assim os acionistas deverão auto limitar a sua apropriação de valor de modo a permitir uma distribuição adequada pelos vários elementos do “ecossistema” que suporta a vida da organização.

É neste conceito de “ecossistema” económico, originalmente proposto por James F. Moore, que se funda a ISO 26000, a norma internacional de responsabilidade social. Pela sua importância e capacidade de ilustrar o que aqui se expõe, transcrevo os seguintes excertos da ISO 26000 - Edição Portuguesa:

“A característica essencial da responsabilidade social é a disponibilidade da organização para incorporar considerações sociais e ambientais no seu processo de tomar decisões e ser responsabilizável pelo impacte das suas decisões e atividades na sociedade e no ambiente. Isto implica uma conduta ética e transparente (...) Também implica que a responsabilidade social seja integrada em toda a organização, que seja posta em prática nas suas relações e que tenha em conta os interesses das partes interessadas. (...) “Como a responsabilidade social diz respeito ao impacte potencial e real das decisões e atividades da organização, as atividades diárias contínuas e regulares da organização constituem a conduta mais importante a ser abordada. A responsabilidade social deverá ser parte integrante da estratégia organizacional fundamental, com responsabilidades atribuídas e obrigações em todos os níveis adequados da organização. Deverá refletir-se no processo de tomada de decisões e ser tida em conta nas atividades de implementação.”

Estes conceitos foram adotados pela Comissão Europeia na sua “Estratégia de RSE 2011-2014”. Veja-se o texto da definição de RS, na versão original em inglês, dada a fraca qualidade da tradução oficial disponibilizada:

The Commission puts forward a new definition of CSR as “the responsibility of enterprises for their impacts on society”. Respect for applicable legislation, and for collective agreements between social partners, is a prerequisite for meeting that responsibility. To fully meet their corporate social responsibility, enterprises should have in place a process to integrate social, environmental, ethical, human rights and consumer concerns into their business operations and core strategy in close collaboration with their stakeholders, with the aim of:

  • maximising the creation of shared value for their owners/shareholders and for their other stakeholders and society at large; 
  • identifying, preventing and mitigating their possible adverse impacts.

Cabe aqui uma referência ao conceito que entre nós tem sido muito difundido, arredado quer do conceito internacionalmente aceite quer da opção da união europeia, e que converte a RS em atividades de índole filantrópico ou assistencialista. De facto os donativos ou apoios a causas sociais são meritórios e até, no contexto de crise, essenciais para mitigar os efeitos do desemprego e redução de apoios sociais. Mas a filantropia é a generosidade do acionista ou a possibilidade fiscal concedida pelo Estado. Não é fazer as operações de modo a reduzir impactes negativos ou maximizar impactes positivos. Por isso não pode ser um substituto da responsabilidade social.

Em sentido inverso tem-se visto apresentar como RS todas as ações que proporcionam maior bem estar a um certo grupo carenciado ou que geram uma resposta a um problema social. O objeto de atividade de uma organização nunca é, em si mesmo, uma questão de RS. O impacte dessa atividade é que é tratado em sede de RS. Para melhor compreensão desta diferença a ISO 26000 fornece extensa informação.

A normalização em responsabilidade social tem sido também objeto de confusão. A RS só pode ser voluntária e cada organização encontra com as suas partes interessadas a melhor forma de gerar valor partilhado, minimizando os impactes negativos. A norma ISO 26000 é um guia para a implementação da RS. A norma portuguesa NP 4469 – 1, que, sendo de requisitos, é certificável, estabelece os requisitos de um sistema de gestão da RS. Nem uma nem outra definem o que uma certa organização tem de fazer em RS. Mas a adoção da NP 4469-1 pode ser certificada, facilitando a percepção do mercado, nomeadamente dos clientes, quanto à integridade operacional da organização e portanto contribuindo para um clima de confiança e transparência que gera uma economia mais dinâmica e eficaz.

Ética e responsabilidade social são elementos essenciais na economia do futuro, porque a cadeia de valor tenderá para a dispersão geográfica e novos elementos de criação e manutenção da confiança são essenciais. Vejam-se os imensos danos provocados pelo caso da carne de equídeo em vez de bovino.

Por outro lado a sociedade do conhecimento exige um novo paradigma de cooperação e uma nova forma de integrar os detentores desse conhecimento em redes de inovação e desenvolvimento. As típicas formas orgânicas da sociedade industrial já não respondem. Uma nova hierarquia de valores e uma nova percepção de sucesso e felicidade estão a interpelar-nos. A resposta poderá estar a nascer no “regresso ao futuro”, em que os intemporais valores que a Humanidade construiu ao longo dos séculos venham a ser o suporte para uma nova economia.

 

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