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ISO 26000 e pequenas e médias organizações (PMOs) | IPAI Auditoria Interna jan/mar 2013

Abordamos a questão da RS em pequenas e médias empresas, enquanto caso particular das PMOs.

As pequenas e médias organizações são organizações cujo número de trabalhadores ou dimensão e volume de atividades fica abaixo de determinados limites, que variam de país para país.

As micro organizações costumam ser incluídas neste grupo embora em muitos casos sejam mais bem caracterizadas como Ateliers ou Oficinas onde um Profissional sénior emprega e orienta um grupo de profissionais mais jovens e uma ou duas pessoas de suporte.

Algumas Micro organizações são empregadoras de um número varias vezes superior aos dos seus empregados formais, dando trabalho a profissionais eventuais que trabalham à peça, ao projeto ou para dar resposta a um contrato específico.

É ao nível da Micro organizações que mais se sente a mudança do paradigma “emprego” para o paradigma “trabalho”, com tudo o que isso traz de bom e de mau.

O termo “empresas” designa normalmente as organizações que, além dos seus objetivos de negócio próprios, visam o lucro financeiro, destinado a remunerar o capital social.

Na realidade também esta distinção tem sofrido mudança. Uns anos atrás seria indiscutível que o objetivo da “empresa” era gerar lucro para o seu proprietário ou acionistas. A melhoria de perceção do projeto empresarial mostrou que só havia lucro continuado para distribuir ao acionista quando a “empresa” gerava valor para os seus outros públicos.

Assim, por um processo evolutivo que não cabe aqui explicar, as “empresas” aproximaram-se do conceito geral das “organizações”, com a particularidade da apropriação do “lucro” financeiro por uma das partes interessadas – o acionista.

Segundo a ISO 26000, “organização” é uma “entidade ou grupo de pessoas e instalações com uma estrutura de responsabilidades, autoridades e relações e com objectivos identificáveis”. Portanto move-se.

Logo causa impactes, logo tem de assumir a responsabilidade por eles para que se esforce para reduzir os que se revelem negativos. Assim faz sentido falar em responsabilidade social das “organizações” e não apenas das “empresas”.

As micro, pequenas e médias organizações têm no entanto uma particularidade que determina a forma como podem ou não ser responsabilizadas. Trata-se da sua integração, a montante, em cadeias de valor que são controladas por centrais de fabrico, distribuição ou serviço, cujo poder centrípeto, resultante do controle da restante cadeia de valor a jusante, limita a capacidade das PMOs em realizar as suas próprias escolhas na forma de concretizar os seus negócios.

Noutros termos, as grandes centrais de produção, distribuição ou serviço determinam como funciona o seu mercado e que fatores são valorizados ou desprezados. As PMOs não têm como escapar ao “ambiente” que lhes é criado e que determina o ecossistema em que têm de procurar sobreviver.

Deste modo as grandes organizações tornam-se responsáveis pelas regras que criam na sua “esfera de influência”, definida pela ISO 26000 como “âmbito/extensão das relações políticas, contratuais, económicas ou outras através das quais uma organização tem capacidade para afectar as decisões ou atividades de indivíduos ou organizações”.

Por consequência as grandes organizações devem, como uma das suas responsabilidades, procurar definir para os seus fornecedores regras que promovam a responsabilidade social e os encorajem a criar valor de forma socialmente responsável.

A integração da responsabilidade social numa PMO poderá ser levada a cabo através de ações práticas, simples e económicas e não necessita ser complexa ou onerosa. Graças à sua dimensão mais reduzida, e ao seu potencial para serem mais flexíveis e inovadoras, as PMOs poderão até encontrar oportunidades particularmente boas para a responsabilidade social. São geralmente mais flexíveis em termos de gestão organizacional, têm frequentemente um contacto estreito com as comunidades locais e os quadros superiores costumam ter uma influência mais imediata nas atividades da empresa (ISO 26000).

A norma refere que a aplicação da RS nas PMOs poderá ser muito mais simples porque os processos de comunicação interna e externa com as partes interessadas poderão ser mais intuitivos e informais, sem prejuízo da necessária transparência. É evidente que o âmbito de uma PMO será especializado ao ponto de considerar que nem todas as questões se lhe aplicam, embora seja de esperar que tenha aspetos a considerar em todos os sete temas fundamentais.

Mantendo presente que a RS é a operacionalização do desenvolvimento Sustentável ao nível das organizações, a PMO deverá priorizar os impactes que decide abordar tendo em conta o seu significado geral no âmbito da Sustentabilidade, mas sem deixar de dar a maior importância às questões que afetem a sua comunidade local de suporte, nomeadamente o apoio às instituições locais que proporcionam respostas a problemas sociais urgentes.

É muito provável que as PMOs não possuam recursos próprios, quer de conhecimento sobre a matéria, quer de capacidade para implementar um programa de gestão da sua responsabilidade social.

O papel das Normas Portuguesas 4469 é fornecer orientação e metodologias certificáveis para a criação de um sistema de gestão da RS. O mercado já disponibiliza um conjunto de pessoas e empresas com competências para fornecer esse serviço às PMOs.

Mais uma vez as grandes empresas poderão ter aí um papel orientador e até de pré-acordo para fornecimento de serviços a preços mais competitivos.

As Associações de sector ou regionais poderão também ter uma papel da maior importância em projetos coletivos e na replicação de boas práticas, numa ótica de redução de custos e melhoria das condições de competitividade dos seus associados.

A micro empresa é um diferente fenómeno. Se a opção individual do seu responsável principal pode movê-la a assumir formalmente a sua responsabilidade social, a realidade é que o mercado será o fator quase absoluto de determinação das suas opções.

Na micro empresa o impacte negativo da sua atividade será quase sempre limitado a um tema fundamental e a poucas questões.

A natureza das micro empresas leva a uma grande proximidade entre os seus trabalhadores, que geralmente sabem tudo o que nela se passa. Os impactes tendem a ser reduzidos em cada uma delas, mas no seu conjunto tornam-se muito significativos, dado o elevado numero destas organizações.

Aspetos de responsabilidade social que nas empresas de maior dimensão são bem tratados, podem aqui ser negligenciados como as questões da higiene e segurança, do assédio ou da igualdade de género. Outros aspetos que poderão ser negligenciados são a transparência de gestão e a conformidade fiscal.

Pelo exposto a RS é sem dúvida da maior importância nas micro, pequenas e médias empresas mas tenderá a ser ignorada, a menos que as grandes organizações a difundam como requisito da sua cadeia de valor.

A maior organização compradora é o Estado. Dado que a RS tem como um dos seus objetivos reduzir os impactes negativos e que estes normalmente são um custo para o contribuinte, é boa gestão da “coisa pública” que o Estado comece a dar preferência aos fornecedores que investem na RS, desde que esse investimento seja objetivamente e imparcialmente medido.

As compras públicas são o grande campo onde a RS pode começar a fazer diferenciação e a definir o mercado, pelo menos assim já o entendeu a Comissão Europeia na sua estratégia de RSE para 2011-2014.

 

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