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Cooperação em tempo de crise | ipai auditoria interna abr/jun 2013

Um recente estudo da Caritas coloca em risco ou efetividade de pobreza nada menos que 25% dos Portugueses. Para quem em 1974 tinha toda a esperança dos 20 anos isto é uma espécie de derrota pessoal.

A minha geração sonhou um outro Portugal e uma outra adesão a uma outra Europa. Mas isto é o que temos. Como sempre, o importante é continuar a construir e com a mesma esperança.

Que mundo é este em que temos hoje de procurar sobreviver? Ou que podemos fazer neste mundo que tenha valor e seja transacionável? Ou ainda que sabemos fazer que alguém queira pagar a preço justo?

Temos múltiplas respostas. Muitas empresas estão a registar sucesso e até forte crescimento nos seus mercados externos. Outras conseguem que o seu “know how” seja remunerado de forma muito interessante noutros continentes. Mas estes sucessos não chegam para evitar que muitos portugueses tenham tomado novamente o rumo da emigração e que centenas de milhar estejam sem trabalho. Por qualquer critério este é um momento de emergência nacional.

As empresas estão sem capital e a trabalhar “à vista”. Não se podem fazer planos seguros cujo prazo seja mais que curto e não se pode correr qualquer risco evitável. Por isso não se cria emprego, mesmo que isso seja possível, desde que não seja indispensável. Não se investe, ainda que haja recursos, se o investimento não for obrigatório.

Não se compra se for possível adiar mesmo que faça falta desde que a falta seja suportável. Esta é a receita segura da espiral recessiva.

O Estado é o único (dizem) que pode inverter esta espiral, investindo ele próprio, ou abrindo crédito, ou criando emprego, ou atraindo grandes investimentos estrangeiros. Mas o deficit não o permite, segundo parece.

Que resposta podemos obter nas mensagens da Responsabilidade Social e da Sustentabilidade?

A primeira reação é de rejeição: este seria um péssimo momento para essas ideias, excepto no domínio da solidariedade social. Mas será assim?

Penso que não e que pelo contrário onde os poderes públicos se enredam em confusas previsões e dúbias politicas as empresas poderiam fazer mais por si próprias.

Antes de mais no reforço de um associativismo independente. A RS implica a cooperação, a criação de um ecossistema organizacional, o conceito de comunidades de suporte, a cooperação e o envolvimento com e das partes interessadas, como já referimos em textos anteriores.

A criação de fortes sistemas de cooperação, por indústria, por sector, por região, por mercado, é uma forma de enfrentar como comunidade o desafio de outras comunidades que oferecem soluções e produtos mais competitivos do que nós.

Hoje a realidade do associativismo empresarial é bem o prenúncio e o espelho do que sucedeu à nossa economia: dependente de subsídios, só tem associados se lhes der acesso a vantagens imediatas, não consegue mobilizar para projetos com largo alcance, pouco ou nenhum poder político, local ou nacional.

Neste contexto a inovação quando nasce é para poucos, quando é convertida em produto gera sucesso localizado. Muitos custos que poderiam ser partilhados multiplicam-se pelas iniciativas paralelas e exclusivistas. Outras não chegam a nascer porque tal não é possível para um, mas seria fácil para vários.

A mentalidade de casota ou da feroz disputa do regato de água continua bem viva. Ora assim, sem cooperação, sem aprendizagem mútua, numa tática de salvação individual, seremos incapazes de enfrentar as ameaças externas. O incentivo à criação de mais e melhores sistemas de associação e cooperação empresarial e a disponibilidade para os integrar e neles trabalhar de forma empenhada e generosa é um dos contributos maiores que a nova concepção de RS nos traz.

Outro eixo que resulta da RS é o impulso para novas relações de trabalho. No passado todos os movimentos de trabalhadores assumiram que a criação de riqueza era, em modo de produção capitalista, um problema exclusivo do patrão e que a disputa pela maximização da parte dos trabalhadores era o essencial do trabalho reivindicativo.

Hoje as sociedades europeias, embora muitos tenham grande dificuldade em reconhecê-lo, enfrentam países em que o modo de produção capitalista consegue funcionar com muito menor custo de trabalho e de contexto.

Outrora isso seria resolvido com recurso a barreiras, alfandegárias, militares ou ambas. Hoje o concerto das Nações e os equilíbrios globais não o permitem, para além de que os Povos o não admitiriam. Mal ou bem, vivemos em países com um grau de abertura que tornou muito difícil para a economia europeia proteger o modo de vida das suas sociedades.

Assim os Estados estão condenados a reduzir-se e tornar-se mais eficientes com menos recursos e as pessoas terão de temperar os direitos com a dura realidade das possibilidades.

Neste quadro uma nova forma de diálogo social terá de emergir, centrada já não apenas na disputa da repartição do resultado mas também na convergência sobre os modos de o gerar.

A crise de recursos é a crise de um modo de vida baseado no crédito.

Ainda que para desgosto dos que vivem de consumos exuberantes, temos de deter essa tendência e descobrir formas de viver com poupança crescente ao invés de divida crescente.

Essa é uma das singelas mas irrefutáveis mensagens da Sustentabilidade. Mais do que um novo modelo de desenvolvimento (que implica) a Sustentabilidade é um modo de estar na vida, uma ética de convívio com a Terra e com a Humanidade.

Nessa ética o bom é equilíbrio, enquanto na ética vigente o bom é a vitória.

A Sustentabilidade chama-nos à frugalidade e à criação/regeneração de existências naturais.

Não gosto de palavras que convertem a natureza em objetos de uso económico como “riquezas, capital, ativos, bens, recursos naturais”, prefiro pensar em entidades que me pré-existem e que quero manter ou ampliar.

Naturalmente sei que isto é poético e pouco prático. Minérios e colheitas são condição da manutenção do nosso modo de vida e de sustento para os milhares de milhões de seres humanos.

Mas alguém tem de puxar para esse lado senão caímos no abismo egoísta que acabará por tornar a vida muito mais dura para as novas gerações. Acontece que este modo de vida é favorável à percepção de felicidade em economias de escassez.

Ou seja a RS e a Sustentabilidade podem ajudar as empresas a encontrar aliados e parcerias nesta fase de redução e escassez. Podem auxiliar a criar novas relações com as partes interessadas e criar um ambiente de empenhamento coletivo na eficiência, no serviço e na inovação.

Podem ainda contribuir para consumidores mais exigentes, mais interessados em usufruir do que possuir, em sentir do que ter e em partilhar do que guardar. Isto gera necessidades e mercados de serviços (e alguns produtos) que não são acessíveis à produção exterior.

Não é de desprezar o efeito que medidas como estas podem trazer. Não serão visíveis no curto prazo mas construirão uma sociedade melhor, por que mais capaz de criar valor e mais equilibrada.

Quem poderá fazer estas ideias acontecer? Qualquer pessoa que tenha alguma influência na empresa poderá ser incentivador.

Não me parece que custe muito. Exige sim empenhamento pessoal e a capacidade de acreditar e lutar por isso. Exige acreditar firmemente nos novos valores: cooperação, serviço, verdade, disponibilidade, partilha, interajuda, generosidade, lealdade.

Neste campo temos muito a aprender com a Economia Social. Aliás temos mesmo muito a aprender porque os nossos valores não tem sido nada disto.

Será que 25% de pobres ( ou em risco de ) e centenas de milhares de desempregados são (um pouco ao menos) fruto desta falta de valores?

Temos de pensar nisso, porque se for assim então não há austeridade que nos valha se não mudarmos as crenças e as práticas.

 

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