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Pertinência e premência da Economia Circular em tempos de Covid e Pós-Covid

pertinência e premência da economia circular em tempos de covid e pós-COVID

  Ricardo Lopes Ferro
  Presidente do ONS - Organismo de Normalização Setorial / APEE
  Membro da Delegação Portuguesa no ISO/TC 323
  Presidente da Subcomissão Técnica para a Economia Circular

 

O crescimento ilimitado num mundo de recursos limitados não é sustentável. Esta afirmação já era insofismável antes do Covid-19, mas esta pandemia veio reforçar a importância do consumo local, quer pela sustentabilidade económica das comunidades, quer pela garantia de fornecimento de produtos e matérias-primas. Desta forma, a Economia Circular (EC) passou a ter um reforço estratégico na sua adoção. Como chegámos a este ponto e como operacionalizar esta estratégia são o desígnio deste artigo.

O negócio conhecido como Economia Linear (extrair-produzir-consumir-dispor) esgota os recursos naturais sem qualquer regeneração e pode produzir um impacto social e ambiental negativo (por exemplo, na saúde, no emprego e no aumento das desigualdades).

Se os princípios económicos fossem inspirados pelos ciclos observados na natureza, o uso de recursos poderia ser mais eficiente, para além de ser uma resposta ambiental, social e económica para questões como os impactos sociais, o emprego e a paisagem.

A Economia Circular não é um conceito novo e vários dos seus instrumentos já estão implementados em atividades como o ecodesign, o fornecimento sustentável e a gestão de resíduos. Mas a aplicação destes instrumentos é apenas o começo da Economia Circular, pois não garante, de forma abrangente, o alcançar dos objetivos sociais, económicos e ambientais. Para isso, o conceito precisa ser amplamente legível, compreensível e implementado. A normalização é, assim, um instrumento reconhecido, acessível e universal para disseminar os princípios, conceitos, frameworks, guias de implementação e Sistemas de Gestão. Já o fez com enorme sucesso nas áreas da Qualidade (ISO 9001), Ambiente (ISO 14001), Saúde e Segurança no Trabalho (OHSAS/ISO 45001), entre outros domínios.

Diga-se que o principal objetivo da normalização, nomeadamente da ISO, é a padronização internacional para facilitar o intercâmbio de mercadorias e serviços através da eliminação de barreiras técnicas ao comércio. Uma norma internacional incorpora os princípios essenciais da abertura global e transparência, consenso e coerência técnica. Estes são salvaguardados através do seu desenvolvimento num Comité Técnico ISO (ISO/TC), representante de todas as partes interessadas, apoiado por uma fase de comentários públicos (o inquérito técnico da ISO).

A APEE, como Organismo de Normalização Setorial Português para os temas da Ética, Responsabilidade Social e Sustentabilidade, comprometeu-se, desde a primeira hora, com o IPQ (Organismo Nacional de Normalização) para o acompanhamento e a participação ativa nos trabalhos da ISO nesta matéria (ISO/TC 323). A Delegação Portuguesa participou na primeira reunião plenária do ISO/TC 323, em Paris, o ano passado e tem participado nos vários Working Groups criados.
O ISO/TC 323, constituído em 2018, tem como missão desenvolver padrões para apoiar um modelo económico alternativo e orientado para o futuro, dando um entendimento comum sobre o que é Economia Circular, identificando novos modelos de negócios e estabelecendo uma estrutura e ferramentas que qualquer organização possa adotar para ajudar a integrar a Economia Circular nas suas atividades de maneira eficaz e sistemática.

O ISO/TC 323 visa atuar pragmaticamente e operacionalmente para contribuir e aportar uma resposta consistente às necessidades ambientais e sociais.
O âmbito do ISO/TC 323 é: padronização no campo da economia circular para desenvolver estruturas, orientações, apoio, ferramentas e requisitos para a implementação das atividades de todas as organizações envolvidas e para maximizar o contributo para o desenvolvimento sustentável.

O ISO/TC 323 propõe maximizar os contributos das organizações para o desenvolvimento sustentável, criando padrões/normas para implementar a economia circular nas suas atividades e em colaboração com parceiros e principais partes interessadas. Isso inclui, também, organizações internacionais.

O ISO/TC 323 aborda direta ou indiretamente a maioria dos 17 ODS da Agenda 2030 da ONU, dando uma resposta ao esgotamento de recursos, assim como a biodiversidade, mudanças climáticas, ruturas sociais entre as pessoas, formas de produção, consumo e mudança de comportamento.

De acordo com o Fórum Económico Mundial “uma economia circular traz benefícios operacionais além de estratégicos, tanto ao nível micro, como ao nível macroeconómico. Esta é uma oportunidade de biliões de dólares com enorme potencial de inovação, criação de empregos e crescimento económico”.

Para apoiar as organizações a aproveitar essas oportunidades, o ISO/TC 323 propõe estabelecer uma estrutura para ajudar as organizações e, em particular, as partes interessadas económicas, a integrar a Economia Circular nas suas atividades. Colabora dentro e fora de setores e cadeias de valor para criar ferramentas para medir o progresso alcançado na implementação da EC.

A implementação dos princípios de economia circular em processos, produtos e serviços permitirá às organizações otimizar a gestão dos seus recursos, colaborar com as suas cadeias de valor e implementar novos modelos de negócios, tornando-as mais resilientes às questões ambientais, sociais e aos desafios económicos.
Por exemplo, alguns novos modelos de negócios promovem uma transição do conceito "pagar pela propriedade" para o conceito "pagar para usar", que reflete a mentalidade de um novo consumidor/utilizador, com base na ideia de que os recursos são limitados e, portanto, o uso de produtos deve ser maximizado. Conceito fortemente preconizado, per si, por teorias Económicas e Ambientais.

A nível macroeconómico, o ISO/TC 323 ajudará a integrar questões de Economia Circular nos produtos, na cadeia de produção e no consumo/utilização de serviços. Ao fornecer um entendimento comum sobre Circular Economia e as suas ferramentas, o ISO/TC 323 facilitará o diálogo e o comércio entre as diferentes partes interessadas aos níveis regional, nacional ou internacional. Os documentos produzidos pelo ISO/TC 323 ajudarão as organizações a implementar a EC nas suas atividades voltadas para as suas Partes interessadas.

A Economia Circular é um conceito genérico que precisa de ferramentas operacionais para ser implementado. Para promover esta implementação, devem ser abordadas múltiplas dimensões:

  • Parcerias: são cruciais para a economia circular; nenhuma organização é capaz de implementar um sistema de economia circular sozinha;
  • Integração: na economia circular toda a possibilidade de melhoria na eficiência dos recursos deve ser considerada de maneira integrada (fluxos de materiais e energia integração; integração de ciclos biológicos e técnicos);
  • Infraestrutura: necessidade de construir uma infraestrutura que permita o fluxo sustentável de materiais na sociedade;
  • Apoiar empresas e organizações a tornarem-se mais circulares em toda a sua cadeia de valor, desde a etapa inicial de desenvolvimento de produtos e serviços;
  • Medir e avaliar a circularidade de materiais, produtos e serviços, organizações e o seu impacto na sustentabilidade;
  • Condições do mercado: promover o uso de produtos e serviços da Economia Circular, incluindo os seus princípios. Os consumidores/utilizadores precisam de informações transparentes sobre circularidade dos materiais e o nível de maturidade;
  • Especificações necessárias: para fornecer materiais, produtos e serviços circulares competitivos no mercado;
  • Sinergias locais: para identificar uma correspondência entre recursos circulares e a recuperação potencial (entre setores) do ponto de vista técnico;
  • Inovação nos modelos de negócios, tecnologias, produtos e serviços, tal como: desempenho, abordagem baseada na redução de impactos ambientais e sociais adversos e no fornecimento de melhorias para o desenvolvimento sustentável.

Por último, uma nova dinâmica social, reforçada por estes momentos que estamos a viver, veio aumentar a consciencialização sobre os possíveis impactos ambientais e sociais de produtos, processos e serviços, tanto pela indústria quanto pelos consumidores/utilizadores. Sublinhe-se o aumento de publicidade com referência ao produto local e apoio ao produtor.

Assim, o envolvimento dos consumidores/utilizadores é crucial para a implementação de uma economia circular. É o consumidor e/ou utilizador que decide o que comprar, como usar, como descartar e de quem comprar. Todas essas decisões são importantes.

Hoje vemos uma nova geração a tentar descobrir um outro estilo de vida e uma economia diferente. Aproveitemos estes momentos e exemplos para todos darmos o nosso contributo na nossa esfera de influência: no tipo de consumo que adotarmos, nas opções empresariais, no estilo de vida e, já agora, no contributo ao desenvolvimento normativo nesta área.

 

 

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